Times Like These...
Raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desencaixotar as minhas emoções verdadeiras.
Alberto Caeiro


Aquilo que a gente lembra

Sem o querer lembrar,

E inerte se desmembra

Como um fumo no ar,

É a música que a alma tem,

É o perfume que vem,

Vago, inútil, trazido

Por uma brisa de agrado,

Do fundo do que é esquecido,

Dos jardins do passado

Aquilo que a gente sonha

Sem saber de sonhar,

Aquela boca risonha

Que nunca nos quis beijar,

Aquela vaga ironia

Que uns olhos tiveram um dia

Para a nossa emoção —

Tudo isso nos dá o agrado,

Flores que flores são

Nos jardins do passado

Não sei o que fiz da vida,

Nem o quero saber

Se a tenho por perdida,

Sei eu o que é perder?

Mas tudo é música se há

Alma onde a alma está,

E há um vago, suave, sono,

Um sonho morno de agrado,

Quando regresso, dono,

Aos jardins do passado.


Fernando Pessoa
Que sorte têm os atores! Cabe a eles escolher se querem participar de uma tragédia ou de uma comédia, se querem sofrer ou regozijar-se, rir ou derramar lágrimas; isto não acontece na vida real. Quase todos os homens e mulheres são forçados a desempenhar papéis pelos quais não têm a menos propensão. O mundo é um palco, mas os papéis foram mal distribuídos.
Oscar Wilde
E que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Fernando Pessoa
Andaime

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘sp’rança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças -
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

-Fernando Pessoa

Trago lágrimas, sorrisos, histórias, abraços… Trago momentos felizes, momentos de decepção. Carrego pessoas, amores e desamores, amigos e inimigos, desafetos, paixões. Não sou um livro aberto, mas também não tão fechado que não conseguirás abrir, basta ter jeito, saber tocar as páginas, uma a uma, e descobrirá de que papel é feito cada uma delas.
Caio Fernando Abreu
O significado das coisas não está nas coisas em si, mas sim em nossa atitude com relação a elas.
Antoine de Saint-Exupéry


Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

José Saramago